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20 de jan de 2009

Minhas experiências no 456

Você conhece o Rio? E o Méier, você conhece? Durante os cinco anos do meu curso de engenharia, eu peguei diariamente um ônibus que fazia ponto final no Méier para ir até a universidade em Botafogo e depois voltar. O famigerado 456! Esta linha fazia, e acredito que faça até hoje, o trajeto Méier-Copacabana. Nos dias de semana o 456 viajava sempre cheio, levando estudantes e trabalhadores de uma direção à outra. Nos finais de semana, ele também viajava completo levando os banhistas do Méier para a praia de Copacabana. Conclusão: o 456 vivia sempre lotado!

Eu até já havia me acostumado a viajar em pé, pois estava sempre atrasada pela manhã e não podia me dar o direito de esperar pelo próximo ônibus. Tinha desenvolvido uma técnica especial para me equilibrar melhor, com meus livros e apostilas e mais a bolsa a tiracolo de um lado, e do outro lado o braço ao alto segurando a barra de ferro do teto, enquanto o motorista entrava com toda vontade na curva súbita da saída do túnel e em todas as outras também. Era uma rotina desconfortável e por muitas vezes previsível. Se eu sempre tomasse o ônibus no mesmo horário de manhã, já conhecia os companheiros de viagem. Apesar de não conversar diretamente com eles, era impossível não ouví-los conversando em voz alta entre eles, em grupos, que não necessáriamente sentavam na mesma fileira. Já sabia seus nomes, onde trabalhavam, o que faziam, se tinham filhos e quantos eram. A cada dia eu ampliava em silêncio o meu banco de conhecimento sobre aquela comunidade de organização informal, como se assistisse capítulos de uma novela de segunda à sexta-feira. Quando um deles faltava, os outros companheiros de viagem chegavam a se preocupar com o fato, e passavam boa parte da viagem conjecturando hipóteses e justificativas para o ausente faltar ou chegar atrasado no trabalho: “Com certeza o seu filhinho adoeceu… ou será que foi a sogra que finalmente capotou?”

Eu gostava de prestar atenção no comportamento daquelas pessoas que, assim como eu, eram viajantes assíduas do 456. Elas, porém, não se reservavam como eu a pensamentos e leituras. Pelo contrário, elas usavam aquele tempo para se comunicar, fazer amizades, trocar informações úteis, comentar a novela ou o futebol do dia anterior. Enfim, se socializavam com um tom puro e inocente, se entregando ao prazer de uma conversa relaxante e desinteressada, com a certeza de que em poucos minutos estariam em pontos diferentes da cidade, cada um desempenhando suas atividades sem a participação ativa do outro. Por isso, nunca consegui saber na verdade, o quanto de real se encontrava nos casos contados por eles em voz alta dentro do 456. Uma mentirinha ali não causaria problemas. Ninguém teria o intuito de verificar. Era só mesmo um bate-papo informal de viagem, sem maiores consequências.

Uma vez voltando da universidade para casa no final da tarde, entrei no 456, para variar, super lotado. Como quase sempre acontecia, fiquei imprensada no meio de vários outros passageiros que viajavam em pé no corredor com meus joelhos encostando na lateral de um senhor que sentava no banco à minha frente. O senhor parecia voltar de um dia exaustivo de trabalho. Me olhou com um ar solidário, sorriu e se ofereceu delicadamente para segurar os meus cadernos. Eu agradeci e lhe passei os três cadernos espirais, formato A4, que carregava. Tive então ambas as mãos livres e pude me segurar melhor nas barras dos bancos. O caminho era longo, mas não demorou muito para o senhor que segurava os meus cadernos em seu colo começar a cochilar. Em cada curva sua cabeça balançava de um lado para outro e às vezes tendia para frente, com quedas rápidas provocando um relaxamento no seu pescoço. Dava para se perceber que seu sono ficava cada vez mais profundo. Ele parou de acordar suprêso com os solavancos abruptos que o motorista gostava de dar ao longo do percurso. Eu também percebi ele havia parado de roncar. Foi então que sua boca se abriu e com a língua encaixada na parte inferior de sua dentadura, ele acumulava saliva de um canto a outro, dependendo de para onde a curva do ônibus o levava. Comecei a me preocupar com o que via. Um overflow de saliva acabaria aterrisando nos meus cadernos e se infiltrando em suas folhas. Ai que nojo, só de pensar! Notei que a saliva se concentrava cada vez mais e em maior quantidade. Além disso ela começava a querer pingar boca à fora! Ó, Deus! O que temia estava prestes a acontecer! A sua baba começou aos poucos a se pendurar no seu beiço, como uma minhoquinha gosmenta que fazia movimentos de vai-e-vem na direção vertical, com os meus cadernos servindo de pontaria. À esta altura dos acontecimentos, não era só eu que observava o que ocorria à minha frente, mas também todos os passageiros ao meu redor naquele corredor que mais parecia uma lata de sardinhas. Uma moça com aparência de secretária executiva, também acompanhava de perto aquele episódio. Ela sentava no lugar da janela, no mesmo banco do senhor generoso e babão. Sempre quando um solavanco mais forte acontecia, trocávamos olhares preocupados que expressavam sempre a mesma coisa: “agora vai cair!” O pessoal do corredor dava risadinhas maldosas e faziam piadas com aquela situação. Se não fossem pelos meus cadernos estarem prestes à se refastelarem com uma avalanche de baba alheia, eu até também acharia engraçada toda aquela cena. Mas, confesso que neste ponto eu estava começando a sentir náuseas.

O ônibus entrou na 24 de Maio. Não iria demorar muito e chegaria no seu ponto final. Não via a hora disso acontecer! Entretanto, um acontecimento inesperado me salvou, ou melhor, salvou os meus cadernos. Com uma freiada forte e de supetão, o motorista parou o ônibus para um rapaz acabar de atravessar a rua – fora do sinal, é claro. Isto foi o bastante para o senhor despertar de seu sono profundo, engolindo de uma só vez toda a sua baba num ronco que ecoou bem alto. Alto o suficiente para todos da “platéia” notarem que aquele havia sido o final da situação grotesca, que se deu no percurso de Botafogo ao Engenho Novo. Que alívio! Meu sofrimento havia chegado ao fim. A partir daquele dia, comecei a usar mochila para viajar no 456.

Às vezes me pergunto se aquelas pessoas que viajavam comigo no 456 já se aposentaram, ou continuam se encontrando diariamente como faziam antes. Se eu projetar aquela rotina para os dias atuais, eu diria que provavelmente hoje cada uma daquelas pessoas viajam com seus telefones celulares nos ouvidos, conversando durante toda a viagem com outros que não se encontram no 456!

texto original escrito em 07/05/2007

4 comentários:

Manifesto Interno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lis disse...

Oi Fátima
Já dei risada com esse senhor babão! que cena mais sinistra hem? rsrs
complicado também quando o ônibus apinhado assim, dá o seu sinal , voce precisa descer no proximo ponto e seus pertences estão com alguém que naquela confusão acabou se distanciando, aí é braço pra todo lado , o maor sufoco pra conseguir recolher o pacote!! rs já aconteceu comigo kkk podem me oferecer a vontade que nao aceito mais rsrs
Essas recordaçãoes de idas e vindas de faculdade são gostosas pra dar risadas depois.!
amanhã se puder, faça aquela visitinha básica lá na minha "casa" , tem surpresa ! rs
abraços

Juliêta Barbosa disse...

Fátima,

Apesar da cena grotesca acredito que deve ser uma experiência interessante poder participar dos dramas do cotidiano dessa gente tão sofrida.Bjs

Georgia disse...

kakakakakkaak, Fátima eu o teria acordado uma boa, putz, babar em cima dos cadernos, eca!

Olha, conheco o Méier, eu ia às vezes ali na igreja Batista do Méier que fica numa subida de uma rua bem conhecida e também meu dentista era ali perto dos Bombeiros.

O Méier sempre foi conhecido por suas lojas e bairro legal de se morar.


E que causo esse o seu, hen!
Já tinha vindo aqui ontem, mas nao tinha muito tempo para ler todo esse teu texto...

Um beijao sem baba por favor, rs.

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