Visitante

30 de jan de 2009

Estudando se aprende, mas na dúvida... clique!

Participei esta semana de um encontro de brasileiros, na verdade éramos só brasileiras, interessadas em aprender um pouco mais sobre a nova ortografia da nossa língua. Consultamos os sites já listados aqui no "Geleia de Pera". Todos com conteúdos muito bem elaborados sobre o novo acordo ortográfico. Fizemos o teste da VEJA para termos certeza que entendemos direitinho todos os casos novos do uso (ou não) do hífen. Tiramos algumas de nossas dúvidas (ou seriam dívidas?) sobre separação de sílabas no caso de falsos hiatos. Fizemos um apanhado geral de todas as regras do acordo, de tudo o que mudou no Brasil, do que mudou em Portugal, e por fim assistimos a primeira parte do show "Notícias Populares"/Sequestrador (Pleonasmo), gravado no Canecão, pelo grupo comediante Os Melhores do Mundo. Hilário! Imperdível! Enfim, saímos do encontro com a sensação de que havíamos aprendido tudo sobre a nova reforma! Mais felizes ainda, por podermos contar com o site "Ortografa" que, em caso de dúvida, num só clique nos retorna a palavra procurada já em sua forma ortográfica correta. Valeu Ramon! Ah, no encontro, senti falta da Carly, das Ligys e das outras meninas!

27 de jan de 2009

Amigos

Grandes amigos são raros, mas existem. Graças a deus!! O que seria da humanidade sem “amizade”? E o que seria de mim? Não consigo me imaginar sem ter amigos a minha volta, sem lembrar de aniversários de amigos, sem convidar amigos para um drink, sem me preocupar com amigos, ou sem tentar contatá-los, mesmo apesar da distância.

Acho que nunca vivi um único dia da minha vida pós-adolescência, sem preencher seus momentos com algum assunto ou acontecimento que não envolvesse um ou mais amigos. Quando falo “amigo”, quero dizer aquele que nunca faz algo para decepcionar você. Aquele com quem você poderá contar com sua ajuda, sempre que for necessário – e ele também com a sua, é claro. Aquele pelo qual você encara pela segunda vez uma fila enorme na caixa do supermercado, após já ter pago pelas suas próprias compras, pois ele/ela liga para você no telefone celular dizendo: - Que bom que você ainda está no supermercado! Eu preciso que você compre um litro de leite para mim. Já comecei a fazer um bolo e só agora percebi que o leite acabou! - É lógico que você não vai revelar que na verdade você está atrasada para um compromisso, já passou pelo caixa e já se encontra no estacionamento… Afinal, é um pedido do seu amigo!

Encontrar os velhos amigos é sempre uma alegria. É ótimo estar com eles e também relembrar alguns momentos do passado que nos marcou. Como, por exemplo, aquela festa junina na vila onde morava a Nádia, as visitas às cartomantes com a Mary Helen, a festa “Cafona I” que organizamos lá em casa, e que deixou muita gente até hoje esperando pela “Cafona II”, os churrascos de final de ano da turma da universidade, as festas no apartamento de Elm Park Gardens, entre outros...

Ao lembrar de meus amigos, tenho gosto de guaraná na boca misturado com chopp e cuba-libre, um sorriso formado nos lábios e alegria no coração. Parece patético, mas acredite, é verdadeiro. Sou uma amiga de carteirinha. Não posso mencionar aqui todas as passagens ocorridas com cada um de meus amigos, mas com certeza as tenho guardadas em minha memória com todo carinho, como um de meus maiores tesouros. “Melhor ainda que recordar, é viver”! E neste caso, nada melhor do que rever e reviver os amigos. Os amigos de infância, amigos do bairro, amigos da família, amigos americanos, amigos da universidade, amigos do trabalho, amigos do mestrado, amigos do doutorado, amigos do Rio, amigos de Londres, amigos de Graz, amigos dos irmãos, amigos do marido, amiguinhos dos filhos, amigos dos amigos… Enfim, toda essa cadeia maravilhosa de pessoas que fazem parte da minha vida! Hoje, é a todos vocês "amigos" que dedico este texto! Cheers!


24 de jan de 2009

A Emancipação de Mamãe

O que para muitas mulheres pode parecer um procedimento rotineiro e trivial, para outras é com certeza uma tarefa difícil de ser realizada. Especialmente quando falamos de mulheres da geração dos anos 30, as quais, salvo raras exceções, cursavam até no máximo o segundo grau e depois somente se preparavam para o casamento e para servir aos seus lares, maridos e filhos.
O trabalho fora de casa nunca era visto como uma realização profissional. Era considerado desnecessário, inapropriado para uma senhora de família e muitas vezes como um sinal negativo de que o marido não conseguia suprir sozinho as necessidades básicas da casa e da família. Um vexame! Comentários como: “Coitada, a fulana precisa trabalhar fora…” eram feitos entre amigos e familiares com um tom de compaixão. Outras vezes ouvia-se desculpas para aquelas mulheres que se atreviam à batalha do trabalho fora de casa, porém não se arriscavam a perder seus status de senhoras de família. Tais comentários em geral se expressavam como: “A fulana resolveu trabalhar fora. Na verdade, ela está trabalhando para se distrair. Ela estava tão entediada em casa que precisava de alguma atividade extra para ocupar seu tempo…” - Se por acaso ouvirmos ainda hoje em dia tal desculpa, podemos concluir que a pessoa fazendo o comentário está, no mínimo, cinquenta anos defasada da realidade do mundo atual!
Mamãe faz parte dessa geração. Casou-se com vinte anos de idade com meu pai que, apesar de somente dois anos mais velho do que ela, como todo marido da época que se prezasse se responsabilizou sozinho pelo ganha-pão da família. Mamãe trabalhar fora? Nem pensar! Um assunto que, para sua frustação, era totalmente fora de cogitação. Desde que ficou noiva, mamãe não foi mais encorajada a continuar seus estudos. Também seus planos de trabalhar como professora foram sufocados pela perspectiva de um matrimônio próximo, oferecendo um futuro seguro, sem a necessidade de um esforço maior de sua parte. Tais planos não faziam parte da tradição familiar, nem tão pouco dos costumes da época. Afinal, preparar o enxoval já tomaria quase todo seu tempo!
Mamãe havia feito, além de seu colegial, o curso completo de corte-e-costura. Lembro de sua foto de formatura, na qual ela de lábios pintados e irradiando alegria, usava uma beca preta com babados brancos na frente e um broche com formato de tesoura entreaberta enfeitava o seu peito. Habilidade para trabalhos manuais sempre foi um de seus pontos fortes. Indiretamente ela ajudou bastante o orçamento familiar, mantendo-o relativamente baixo, pois costurava e tecia sempre para mim e meus irmãos, quando éramos crianças. Fato pelo qual se orgulhava, e acredito que se orgulhe até hoje.
Na verdade, mamãe nunca se entregou exclusivamente ao mundo das donas-de-casa de sua época. Ela conseguiu preservar seus próprios interesses, sem interferir é claro com o bem estar familiar. Mamãe usou calças compridas quando nenhuma outra mulher casada da família o fazia, e aprendeu a dirigir quando já éramos semi-adolescentes. Nos finais de semana, ela dirigia uma Ford-Rural da firma de papai para poder passear conosco nas praias e nos parques do Rio, levando também muitos de nossos amiguinhos, todos empillhados dentro daquela caminhonete. Uma farra só! (Naquela época não usávamos cintos de segurança e não recebíamos multas por carregarmos mais pessoas do que o carro comportava em seus bancos… sem contar com o bagageiro…)
Durante um periodo longo ela fez curso de inglês e também cursos de jardinagem e paisagismo, dando asas à sua grande paixão pelas plantas. Chegou até mesmo a participar, com uma amiga que também trabalhava para se distrair, de feirinhas de plantas e artesanato organizadas semanalmente pela prefeitura em vários parques e praças da cidade. Era cansativo, mas elas pareciam sempre bem dispostas e entusiasmadas com toda aquela empreitada, na qual elas eram sozinhas responsáveis pelos investimentos e lucros.
Em casa, contudo, sua responsabilidade se restringia aos temas familiares e domésticos, sem chegar ao escopo financeiro. Assuntos como pagamentos de contas, transações bancárias, contratos de serviços, ou consertos e compras maiores eram quase sempre resolvidos única e exclusivamente pelo papai. Afinal, isso era coisa de homem! Ainda me lembro como se fosse hoje do dia em que mamãe voltou do banco, após abrir sua primeira conta corrente, furiosa, querendo me matar!
  • Você não me explicou nada direito sobre o que eu tinha de fazer lá no banco! – dizia ela ofegante.
  • Como? Eu não falei que voce tinha de levar os documentos e falar com a mocinha da gerência para abrir a conta? – respondi sem entender o que havia acontecido.
  • E o código? Porque voce não me avisou sobre o código???
Havia pouco tempo do falecimento de papai, quando então se fêz necessária a abertura de uma conta bancária para mamãe. Coisa que, apesar de trivial para qualquer um de nós, para minha mãe naquela fase foi mais um obstáculo a ser vencido. Até seus cinquenta e dois anos de idade, ela tinha somente feito uso de cartões de créditos, debitados diretamente na conta de meu pai. Mamãe nunca havia tido antes uma própria conta no banco!
Acabei de falar com mamãe por telefone. Ao saber que estou agora escrevendo a seu respeito, ela me pediu para se possível relatar somente os fatos “maravilhosos”… Espero não decepcioná-la!
Naquele dia no banco, a situação deve ter realmente sido um pouco embaraçosa para ela. Era um horário de grande movimento e o banco se encontrava bem cheio. Demorou para mamãe ser atendida e atrás dela já se formara uma fila de mais de meia dúzia de pessoas. A funcionária do banco lhe pediu para preencher um formulário, enquanto foi fazer fotocópias dos documentos necessários. Ao voltar, passou para mamãe o teclado de números: - Agora a senhora faça o favor de digitar seis números - disse ela. Mamãe mais do que depressa apertou aleatóriamente seis vezes os botões daquele tecladinho à sua frente e – Pronto! – respondeu com obediência. A moça continuou o seu trabalho de abertura de conta, digitando outras informações no seu computador. Logo depois, ela se dirige de volta à mamãe:
- Por favor, senhora, digite mais uma vez o seu código.
- Código? Que código, minha filha? – perguntou mamãe com voz de inocente.
- Minha senhora, os seis números de seu código pessoal. Sua senha para o acesso automático de sua conta bancária!
Então, mamãe finalmente percebeu para que serviam aqueles seis números por ela digitados. Só havia um probleminha: ela já não se lembrava mais quais eles eram…
- Como? A senhora não se lembra mais??? – É lógico que a funcionária do banco não havia explicado anteriormente para mamãe a importância dos números de sua senha. Parecia óbvio! Todo mundo sabia que teria de memorizá-los para usá-los posteriormente quando fosse necessário. Todo mundo, menos a mamãe!
As pessoas da fila começavam a perder a paciência e a reclamar baixinho sobre o que acontecia à frente delas. Mamãe suava frio, contudo, não perdeu a pose:
- Me desculpe minha filha, mas acho que eu vou ter de repetir todo o procedimento, pois aqueles números eu não vou conseguir mais lembrar agora… – disse ela delicadamente à funcionária. E assim foi feito. Super compenetrada, mamãe repetiu a escolha dos números, memorizando direitinho um-a-um e se esforçando ao máximo para além de não errar mais nada, ser rápida para não tomar mais tempo dos outros, atrás dela na fila.
Difícil de prever tal situação, não? Confesso que não me senti culpada. Realmente, jamais iria imaginar que minha mãe não entenderia logo de cara a função de uma senha…
Hoje em dia, várias outras senhas fazem parte da vida de mamãe. Não somente as senhas de cartões de banco, mas também as senhas de acesso para os vários sistemas protegidos que utiliza através de seu computador: seu e-mail, seu ambiente provedor da internet, o skype, etc. Pode-se dizer que gradualmente mamãe se emancipou após ter se tornado viúva.
Foi também após completar sessenta anos, que ela voltou regularmente aos bancos escolares, se matriculando – com um leve empurrãozinho de minha parte – na universidade da terceira idade: uma iniciativa mais do que louvável da universidade do estado. Na universidade ela fez novas grandes amizades. Encontrou pessoas iguais à ela: senhoras, mães, avós, viúvas… Enfim, amigas que atualmente compartilham com ela o tempo vago de suas semanas, com encontros para um café com leite e uma partidinha de mexe-mexe, saídas aos cinemas, museus, teatros ou viagens de fim de semana. Na universidade ela ampliou seus conhecimentos, frequentando vários cursos, workshops e seminários que abrangem temas variados, como por exemplo: história da arte, informática, inglês, espanhol, alemão, yoga, ginástica, pintura, dança sênia e xadrez, entre outros.
Mamãe cresceu como pessoa! Agora ela resolve e decide quase sempre sozinha todo seu dia-a-dia: seus pagamentos, seus compromissos, seus tratamentos, suas compras e consertos. Também desempenha com sucesso todas as transações financeiras necessárias da sua rotina bancária. As vezes até se recusa a usar a fila de idosos no banco, pois, segundo ela, é a fila que demora mais a andar.
Aqueles velhos vão ao banco para ficar de papo com os funcionários do caixa… E além do mais, eles nunca sabem como proceder… Imaginem que nem memorizar as senhas eles conseguem! – Esses, com certeza, ainda não se emanciparam!
texto original escrito em 29/05/2007

20 de jan de 2009

Reclamo, logo existo


Existe coisa mais chata do que aquele seu conhecido, amigo ou parente, que anda sempre com postura ou olhar cabisbaixo, trazendo consigo uma nuvem cinzenta ameaçando chuva somente sobre a sua cabeça?

Deus me livre se algum dia eu também me contaminar por essa atitude ou – será que podemos chamar de – estilo de vida! Só o trabalho deste indivíduo é frustrante e estressante. Ninguém mais, no mundo inteiro, está mais cansado do que ele. Sua rotina familiar é a mais exigente de todas. O tempo sempre joga contra: muito abafado; muito calor; muito frio; muito vento; muita chuva; muita neve… Que coisa mais desagradável!

De acordo com um seminário de comunicação que fiz há algum tempo atrás, aprendi que podemos elevar o nosso humor, e talvez os dos outros a nossa volta, simplesmente revertendo a maneira que comentamos os fatos do nosso dia-a-dia. Porque será que somente lembramos e comentamos sobre os fatos negativos e nunca dos vários outros positivos que nos acontecem? Talvez seja pela mesma teoria das manchetes dos jornais: a tragédia vende mais, chama mais atenção! Acabo de me lembrar do que ocorreu outro dia com uma amiga que é comissária de bordo. Ela fazia um vôo europeu de rotina e ao servir o lanche, um passageiro que segundo ela viria de Montenegro, lhe falou:

- Da senhora eu não aceito nada para comer!

- Como, senhor? – peguntou ela.

- A senhora já se olhou no espelho? Já realizou o quão feia a senhora é? You are very ugly!

Aahhh! Por essa ninguém espera, não? Minha amiga ficou estupefada. Porém, logo se refez do susto e com toda a diplomacia que seu treino profissional e seus bons anos de experiência na área lhe deram, disse a ele:

- Como preferir, senhor. O senhor se quiser pode escolher qualquer outra pessoa de nossa tripulação para serví-lo. Entretanto, o serviço de bordo se encerra em vinte minutos. Faça uma boa viagem!

Para falar a verdade esta minha amiga aeromoça é uma mulher esbelta, elegante e bem bonitinha. Nenhuma beleza fora do normal, mas eu estaria longe de dizer que ela fosse “very ugly”! Padrão de beleza é mesmo um fator muito regional. Fiquei curiosa em conhecer mulheres da República do Montenegro para tentar compreender o que aquele passageiro entenderia sobre feiura… Com certeza ele é um desses que acorda pronto para reclamar da vida e sempre enxerga aquela pontinha de nuvem escura que se esconde num céu ensolarado e lindo. Enfim, um chato! Cruz credo!

Voltando ao seminário de comunicação, eu não quero parecer profetiza das técnicas de auto-ajuda, mas essa estória de mudar o jeito de comentar os fatos até que me ajudou bastante no diálogo familiar. Em vez de reclamar com as crianças dizendo: - Droga! Porque que esses sapatos estão aqui largados no meio do caminho? – pergunta que não necessáriamente induz à solução do problema – eu resolvi usar as técnicas aprendidas no seminário de comunicação e tentar expressar o quanto melhor eu me sentiria se, por exemplo, os sapatos fossem colocados no lugar certo. Então, mudei o tom de voz e o comentário para:

- Meninos, a mamãe vai ficar muito feliz, se vocês colocarem os sapatos que deixaram largados aqui no caminho, no seus devidos lugares.

Ou por exemplo, em vez de: - Darling, quando é que finalmente você vai consertar a gaveta do armário do quarto? Passei a perguntar: - O que é que eu posso fazer para lhe ajudar a consertar a gaveta do armário do quarto? Eu sinto muita falta dela em funcionamento…

Não é que deu certo! Os meninos adoraram poder me fazer feliz com tão pouco. A gaveta também foi consertada! Simples, não? Salve o seminário de comunicação! Acredito que todos os reclamões da vida deveriam assistir um ou vários seminários desse tipo, para entenderem que reclamações constantes não resolvem nada. Na maioria da vezes, só servem para entediar e afastar os outros!


Minhas experiências no 456

Você conhece o Rio? E o Méier, você conhece? Durante os cinco anos do meu curso de engenharia, eu peguei diariamente um ônibus que fazia ponto final no Méier para ir até a universidade em Botafogo e depois voltar. O famigerado 456! Esta linha fazia, e acredito que faça até hoje, o trajeto Méier-Copacabana. Nos dias de semana o 456 viajava sempre cheio, levando estudantes e trabalhadores de uma direção à outra. Nos finais de semana, ele também viajava completo levando os banhistas do Méier para a praia de Copacabana. Conclusão: o 456 vivia sempre lotado!

Eu até já havia me acostumado a viajar em pé, pois estava sempre atrasada pela manhã e não podia me dar o direito de esperar pelo próximo ônibus. Tinha desenvolvido uma técnica especial para me equilibrar melhor, com meus livros e apostilas e mais a bolsa a tiracolo de um lado, e do outro lado o braço ao alto segurando a barra de ferro do teto, enquanto o motorista entrava com toda vontade na curva súbita da saída do túnel e em todas as outras também. Era uma rotina desconfortável e por muitas vezes previsível. Se eu sempre tomasse o ônibus no mesmo horário de manhã, já conhecia os companheiros de viagem. Apesar de não conversar diretamente com eles, era impossível não ouví-los conversando em voz alta entre eles, em grupos, que não necessáriamente sentavam na mesma fileira. Já sabia seus nomes, onde trabalhavam, o que faziam, se tinham filhos e quantos eram. A cada dia eu ampliava em silêncio o meu banco de conhecimento sobre aquela comunidade de organização informal, como se assistisse capítulos de uma novela de segunda à sexta-feira. Quando um deles faltava, os outros companheiros de viagem chegavam a se preocupar com o fato, e passavam boa parte da viagem conjecturando hipóteses e justificativas para o ausente faltar ou chegar atrasado no trabalho: “Com certeza o seu filhinho adoeceu… ou será que foi a sogra que finalmente capotou?”

Eu gostava de prestar atenção no comportamento daquelas pessoas que, assim como eu, eram viajantes assíduas do 456. Elas, porém, não se reservavam como eu a pensamentos e leituras. Pelo contrário, elas usavam aquele tempo para se comunicar, fazer amizades, trocar informações úteis, comentar a novela ou o futebol do dia anterior. Enfim, se socializavam com um tom puro e inocente, se entregando ao prazer de uma conversa relaxante e desinteressada, com a certeza de que em poucos minutos estariam em pontos diferentes da cidade, cada um desempenhando suas atividades sem a participação ativa do outro. Por isso, nunca consegui saber na verdade, o quanto de real se encontrava nos casos contados por eles em voz alta dentro do 456. Uma mentirinha ali não causaria problemas. Ninguém teria o intuito de verificar. Era só mesmo um bate-papo informal de viagem, sem maiores consequências.

Uma vez voltando da universidade para casa no final da tarde, entrei no 456, para variar, super lotado. Como quase sempre acontecia, fiquei imprensada no meio de vários outros passageiros que viajavam em pé no corredor com meus joelhos encostando na lateral de um senhor que sentava no banco à minha frente. O senhor parecia voltar de um dia exaustivo de trabalho. Me olhou com um ar solidário, sorriu e se ofereceu delicadamente para segurar os meus cadernos. Eu agradeci e lhe passei os três cadernos espirais, formato A4, que carregava. Tive então ambas as mãos livres e pude me segurar melhor nas barras dos bancos. O caminho era longo, mas não demorou muito para o senhor que segurava os meus cadernos em seu colo começar a cochilar. Em cada curva sua cabeça balançava de um lado para outro e às vezes tendia para frente, com quedas rápidas provocando um relaxamento no seu pescoço. Dava para se perceber que seu sono ficava cada vez mais profundo. Ele parou de acordar suprêso com os solavancos abruptos que o motorista gostava de dar ao longo do percurso. Eu também percebi ele havia parado de roncar. Foi então que sua boca se abriu e com a língua encaixada na parte inferior de sua dentadura, ele acumulava saliva de um canto a outro, dependendo de para onde a curva do ônibus o levava. Comecei a me preocupar com o que via. Um overflow de saliva acabaria aterrisando nos meus cadernos e se infiltrando em suas folhas. Ai que nojo, só de pensar! Notei que a saliva se concentrava cada vez mais e em maior quantidade. Além disso ela começava a querer pingar boca à fora! Ó, Deus! O que temia estava prestes a acontecer! A sua baba começou aos poucos a se pendurar no seu beiço, como uma minhoquinha gosmenta que fazia movimentos de vai-e-vem na direção vertical, com os meus cadernos servindo de pontaria. À esta altura dos acontecimentos, não era só eu que observava o que ocorria à minha frente, mas também todos os passageiros ao meu redor naquele corredor que mais parecia uma lata de sardinhas. Uma moça com aparência de secretária executiva, também acompanhava de perto aquele episódio. Ela sentava no lugar da janela, no mesmo banco do senhor generoso e babão. Sempre quando um solavanco mais forte acontecia, trocávamos olhares preocupados que expressavam sempre a mesma coisa: “agora vai cair!” O pessoal do corredor dava risadinhas maldosas e faziam piadas com aquela situação. Se não fossem pelos meus cadernos estarem prestes à se refastelarem com uma avalanche de baba alheia, eu até também acharia engraçada toda aquela cena. Mas, confesso que neste ponto eu estava começando a sentir náuseas.

O ônibus entrou na 24 de Maio. Não iria demorar muito e chegaria no seu ponto final. Não via a hora disso acontecer! Entretanto, um acontecimento inesperado me salvou, ou melhor, salvou os meus cadernos. Com uma freiada forte e de supetão, o motorista parou o ônibus para um rapaz acabar de atravessar a rua – fora do sinal, é claro. Isto foi o bastante para o senhor despertar de seu sono profundo, engolindo de uma só vez toda a sua baba num ronco que ecoou bem alto. Alto o suficiente para todos da “platéia” notarem que aquele havia sido o final da situação grotesca, que se deu no percurso de Botafogo ao Engenho Novo. Que alívio! Meu sofrimento havia chegado ao fim. A partir daquele dia, comecei a usar mochila para viajar no 456.

Às vezes me pergunto se aquelas pessoas que viajavam comigo no 456 já se aposentaram, ou continuam se encontrando diariamente como faziam antes. Se eu projetar aquela rotina para os dias atuais, eu diria que provavelmente hoje cada uma daquelas pessoas viajam com seus telefones celulares nos ouvidos, conversando durante toda a viagem com outros que não se encontram no 456!

texto original escrito em 07/05/2007

18 de jan de 2009

A dindinha vai se casar


Meninos! Acabei de falar com a vovó no telefone e tenho duas novidades para contar para vocês. Falei eu entusiasmada. Afinal, não é todo dia que desligamos o telefone tendo novidades para contar. Em geral, a conversa com a mamãe é quase sempre rotineira: reclamamos da falta de tempo para fazermos tudo que planejamos; passamos em pauta a situação de saúde de todos da família; conto a ela as últimas que os meninos aprontaram na escola, no treino de futebol, ou no curso de português; comentamos sobre alguém da família ou de nosso círculo de amizade que tenha nos contatado ou visitado; e para finalizar fazemos planos do que fazer juntas da próxima vez que nos reencontrarmos. Pois então, o entusiasmo se explicava pelo fato de ter novidades para contar para as crianças. E que novidades!

O que é mãe? Fala logo! – Markus parecia já bem curioso. Ok! A primeira novidade é que a Floquinha e o Branquinho vão ter bebês!

Como assim mãe? – pergunta Lukas. ao desprender os olhos do desenho animado que passava na televisão, também já curioso com o assunto.

Bem, a vovó falou que eles estão dentro do puleirinho da gaiola já há vários dias, chocando os ovinhos que a Floquinha colocou. Eles só saem de lá para pegar comida e tomar banho, sempre um de cada vez. Mesmo antes que eles perguntassem, percibi o ar de dúvida e expliquei o que “chocar os ovos” queria dizer. Quase sempre eu superestimo o conhecimento de vocabulário em português dos dois.

E quando eles vão nascer?A vovó leu na internet que vai demorar uns trinta dias para os passarinhos bebêzinhos nascerem. Legal, não? – Eles concordaram e começaram a imaginar a hora de estarem no Rio com a vovó de férias, para conhecerem os novos habitantes da gaiola e ajudarem a alimentá-los. Branquinho e Floquinha moravam num viveiro de uns três metros de largura construído numa parede do quintal da casa do meu irmão, até o dia em que fomos lá visitá-los. Os meninos se apaixonaram por todos os passarinhos. Eram mais de dez, de várias côres, espécies e tamanhos diferentes. Voavam e cantavam sem parar. Tio Wag resolveu então presentear seus sobrinhos com alguns passarinhos. Mamãe apavorou-se com a idéia, pois no fundo sabia que os passarinhos ficariam em seu apartamento, mesmo depois que voltássemos para casa quando as férias acabassem. Ela tinha certeza que não teria coragem de devolvê-los. “Só podemos levar no máximo dois! Vou colocá-los na área de serviço e lá já temos o tanque, a máquina de lavar, a mesinha, a lata de lixo, o varal… enfim, só sobra espaço para uma gaiolinha”, disse ela já super ansiosa com a situação. Bem, melhor do que nada, pensaram os meninos, escolhendo já mais do que depressa os passarinhos que iriam ganhar. Escolheram um macho de côr branca e uma fêmea rajada em tons de banco, cinza, marrom e preto. Isto explica então os nomes: Branquinho e Floquinha. Eu assumo que Floquinha foi uma adaptação dada por eles da palavra “Fleck”, que em alemão significa mancha. Mas não posso garantir, pois nunca me certifiquei com eles sobre isso. Achei os nomes bem bonitinhos e combinando com os novos moradores do apartamento da vovó.

Mãe, você disse que eram duas novidades. Qual é a segunda? – pergunta Markus, analíticamente como um bom neto de professor de matemática.

Ah hah!… A outra novidade é que a dindinha Dê vai se casar!

De verdade? - perguntou Lukas surpreso – Com o Fantoja? - Não adiantava que ele não conseguia falar o nome dele direito! Eu tinha sempre que corrigir! – Sim, lógico que com ele! Com quem mais poderia ser? Legal, né? – Hum hum! – confirmaram – Vai ter festa? – na verdade esta também tinha sido a minha pergunta à mamãe, quando fiquei sabendo do casamento - Por hora não, eles vão se casar no cartório, quero dizer só no documento, e depois quando nós estivermos lá de férias no verão comemoramos todos juntos!

Dê é minha irmã do meio. Seu então futuro marido é amigo nosso já há vários anos. Trabalhamos todos juntos no instituto de onde saí para estudar fora. Todos dois já passaram por longos primeiros casamentos. Não são mais marinheiros de primeira viagem. Eu só fiquei sabendo que eles estavam namorando muito tempo depois que todos, ou quase todos, os nossos amigos em comum já sabiam. Acredito que, crítica da maneira que ela é, a Dê pensou que eu poderia talvez criticá-la (?!?) pelo fato de ter se apaixonado por um de nossos amigos de trabalho. Pudera!

Lógico que fiquei um pouquinho chateada, por não ter sido a primeira a saber do namoro. Mas, por outro lado, minha irmã me conhece bem e sabia que eu não conseguiria ficar de boca calada. Mamãe seria informada a respeito no momento seguinte, obviamente sob promessas de não comentar com ninguém! Na verdade, acho que minha irmã nunca me perdoou pelo fato de tê-la caguetado uma vez, ainda quando éramos adolescentes. Cheguei em casa do curso de inglês e contei para mamãe que havia visto a Dê com um cigarro aceso na mão, dentro do banheiro do curso. Foi verdade. Não menti. Mas, lógico que a versão dela foi outra: “Mãe, eu estava segurando o cigarro da minha amiga enquanto ela entrou para fazer xixi!” A questão nunca foi esclarecida até o final. A dúvida ainda deve existir até hoje para mamãe, só que agora com outros valores e sem mais o teor de responsabilidade de antes. De qualquer forma, o fato foi que naquele dia eu perdi a oportunidade de ser sua cúmplice – talvez porque não estivesse interessada na época em dar uma tragadinha – e a traí… Por isso eu compreendi a sua decisão e não reclamei.

Confesso ter sido desconcertante para mim, chegar ao Rio uma vez de férias e de repente ter que tratá-lo como o novo parceiro de minha irmã. Afinal ele era o amigo dos cafézinhos de depois do expediente, naquele botequim da esquina da Tijuca, onde sempre ficávamos por meia hora ou mais para continuarmos os assuntos sobre trabalho: hierarquia, burocracia, projetos, desempenhos, novidades (para não dizer fofocas), etc. E também sobre todo o resto que incluia desde problemas familiares até decisões importantes, como a escolha da universidade no exterior, ou coisas mais banais como a compra de um sapato novo. Agora aquele que também havia sido meu co-orientador de tese de mestrado, passaria a ser meu cunhado. That’s life! Isto me faz lembrar o caso de uma amiga italiana, que apesar de eu de modo algum compartilhar com ela do mesmo sentimento negativo de seu caso, este me ocorreu agora. A minha amiga cursava o colegial e detestava o inspetor de sua escola. Não só ela, como seus muitos irmãos também. Um belo dia, sua mãe – já viúva há vários anos – chega em casa acompanhada e diz: “Crianças, eu quero apresentar a vocês o meu namorado, que a partir de hoje vai morar também aqui em nossa casa…” Advinhem quem era… Ele mesmo: o abominável inspetor da escola!

Mas para quê que eles vão se casar? Eles poderiam simplesmente fazer uma festa, morar juntos e evitar todas as complicações burocráticas! Falei ao telefone com a mamãe naquele dia. Ela, por sua vez também não sabia explicar – Você sabe como ele é! Todo certinho e formal. Quer fazer tudo como manda o figurino. Imagine só que sua irmã disse a ele aqui em casa, que está em fase de provas no doutorado e se o cartório marcar o casamento para uma quarta-feira, ela talvez não possa ir…. Demos uma boa gargalhada juntas dos dois lados do telefone e concordamos: Só poderia ser a Dê mesmo!

Eu já me preparava para continuar planejando a festa que organizaríamos no Rio para todos os nossos amigos, super animada com a idéia (férias, casamento, festa, amigos: que máximo!), quando fui interrompida pelo Markus: “Temos de pensar em novos nomes para os passarinhos bebês!” Foi então que percebi que para um menino de sua idade, o fato de ganhar novos passarinhos era muito mais interessante e importante do que um casamento na família… Acho que consigo entendê-lo. Talvez se ele fosse menina, se animasse mais com a ideia de comemorar o casamento da dinda.

Quanto aos passarinhos bebês, eles já saíram do ninho. São cinco ao todo e têm cores variando entre branco neve e marrom rajado com preto. Os nomes escolhidos foram: João, José, Morena, Malhadinho e Fred.

Sobre a explicação para o casamento oficial de minha irmã, tudo ficou muito claro para mim quando falei com o casal de pombinhos por skype no outro dia. Estavam radiantes, felicíssimos com a decisão tomada. Riam a toa. Só pode ser amor! Fico muito feliz por eles! Estou torcendo para que o cartório não marque o casamento numa quarta-feira…

texto original escrito em 06/05/2007

Sudoku

Recentemente descobri minha paixão por sudoku. Era inverno e resolvemos passar um final de semana, esticado em cinco dias, em Londres. Nós quatro: Sandy, Andy, Claudy e eu. Só nós quatro! Sem os maridos e sem as crianças! Tudo organizado: maridos, avós, tias e amigos a postos para compensar nossa ausência nesses cinco dias. Seria uma viagem para relaxar; badalar; visitar museus até cansar; passear na Portobello Road, na Oxford Street, no Hyde Park; jantar no restaurante do Jamie Oliver; entrar em todos os pubs que encontrássemos no nosso caminho – mesmo que só fossemos mesmo beber em alguns deles; conhecer os prédios modernos de arquitetura arrojada que invadiram Londres durante a última década; e para finalizar fazer umas comprinhas de fim de estação, aproveitando as ofertas das lojas de griffe da Kings Road ou de Knightsbridge - com exceção da Harrods, que desde o meu tempo de doutorado em Londres eu aprendi que frequentamos a Harrods como vamos a um museu. Olhamos tudo em todos os andares com admiração pela raridade, qualidade ou design. É importante também nos prepararmos para podermos evitar o espanto ao nos depararmos com os preços!
Você deve estar se perguntando “O que tem sudoku a ver com essa viagem?” Bem, vou explicar. De Graz à Londres viaja-se com muita frequência hoje em dia, desde a introdução de vôos diretos super econômicos que já conectam essas duas cidades há alguns anos. Só tem um probleminha. O vôo nos leva até o aeroporto de Stansted e por isso ainda contamos com mais uns 50 minutos de conexão até o centro da cidade de Londres, se pegarmos o ônibus – como fizemos. O que fazer numa viagem de 50 minutos de ônibus, depois de já se ter quase que esgotado o entusiasmo de conversar com as amigas e companheiras de viagem, sobre a programação do final de semana? Ler, é claro! Lá estava eu com um livro já quase aberto (ou será que era a Veja?), quando Andy me mostra seu livrinho de sudoku: - “É super fácil e vicia! Não consigo mais parar. Eu te explico…” Recebi as explicações de como funcionava o preenchimento dos quadradinhos com algarismos de 1 até 9, sem repetições em linhas e colunas. Pedi uma folhinha do livro da Andy com um sudoku nível iniciante para ser resolvido e me iniciei na arte de “sudokar”!
Confesso que no início demorei horas para conseguir resolver o preenchimento dos quadradinhos, pois – analítica do jeito que sou, ou que fui treinada para ser – queria avaliar primeiro todas as possibilidades de cada um, até me cometer a um único valor. Após a quarta ou quinta folhinha de sudoku do livrinho da Andy, já estava completamente viciada no esporte! Nem lembrava mais de como poderia ter sido minha vida sem sudoku! É lógico que comprei uma revista de sudoku só para mim, ainda durante a viagem, já pensando nos 50 minutos do caminho de volta, e também uma outra de sudoku para crianças para presentear os meninos. Tinha certeza que o Markus iria adorar! Lukas ainda nem estava na escola na época e não poderia ainda entender direito o mecanismo desse quebra-cabeças.
Hoje em dia já estou no meu quarto livrinho de sudoku, já visitei vários sites de sudoku na internet e não consigo mais viajar de avião – com ou sem conexão posterior de ônibus – sem levar o meu passa-tempo preferido. Estou até mesmo pensando em adquirir um sudoku eletrônico, daqueles bem compactos, para caber em qualquer bolsinha. No ano passado, quando estiquei uma viagem a trabalho em Cannes com o Darling e fomos até Mônaco de trem, sudokei quase que a viagem toda! Mas confesso que foi difícil resistir à bela paisagem e ao azul maravilhoso do mar da Riviera Francesa, passando pela janela do trem. Prometi a mim mesma que da próxima vez deixarei o sudoku em casa ou no fundo da mala. Tudo tem um limite! Sudoku é bom, mas a Riviera é melhor!
A propósito, a viagem à Londres foi ótima. Conseguimos fazer quase tudo que havíamos planejado. Só não fomos jantar no Jamie Oliver e nem jogamos cartas no final da noite – levei meu baralho em vão! Não nos sobrou tempo livre e obviamente, eu preferi usar uma noite para visitar os “amigos do college" e saborear mais uma vez o aconchego e a hospitalidade da casa da Francesca, com sua cozinha italiana deliciosa!
texto original escrito em 05/05/2007

Alemão? Ah, essa não!

Quando que eu iria imaginar que após ter estudado inglês por vários anos, ter me licenciado como professora dessa língua, ter passado com êxito no Proficiency e no TOEFL, ter dado aulas durante doze anos no mesmo curso que me formei aos 17 anos de idade, e ter praticado a língua diariamente durante os cinco anos que morei na Inglaterra, que eu acabaria morando num país – casando com um nativo e tendo filhos – onde a língua oficial é o Alemão?!?!? Pois é, por essa nem eu nem ninguém esperava. Que ironia do destino, não?
Aprender outra língua naquela altura do campeonato? Sempre li em várias revistas de ensino de línguas estrangeiras que após os trinta anos é muito mais difícil a assimilação de uma língua estrangeira. Especialmente se ela é a primeira a ser aprendida. Pelo menos neste último quesito eu não me enquadrava. Só me restava pensar positivamente e acreditar no fato que toda boa regra tem sua exceção. Até hoje confio neste pensamento! Parece que tudo já estava mesmo de uma certa forma planejado. Houve um tempo, enquanto eu ainda trabalhava como engenheira no Rio, que comecei a aprender alemão com Milu. Afinal eu sempre fui interessada em línguas em geral, e Milu queria continuar praticando a língua das “aftas ardem e doem!”. Aprendi muito com a Milu naquelas amigáveis aulinhas particulares, nos nossos horários vagos após o almoço. Mas, se eu tivesse ao menos desconfiado da hipótese de que num futuro não muito remoto, teria de usar o alemão no dia-a-dia, talvez tivesse investido um esforço maior nas aulas. É sempre assim, como mamãe diz, "o se eu soubesse chega sempre atrasado”!
Pois é, não deu para fugir. Após passar um bom tempo me comunicando somente em inglês, percebi que não havia mais razão para evitar o fato de que eu teria mesmo de aprender alemão. Entrar num cursinho de alemão para estrangeiros nem foi ruim. Até que foi bem divertido. Eu, como sempre, fui uma aluna aplicada, fazia os trabalhos de casa e entendia o que me era explicado com rapidez. O difícil mesmo foi eu entender que o alemão não era somente para ser falado e praticado dentro da sala de aula, mas em todos os outros lugares fora também! Foi duro! Passei bastante tempo me rendendo ao prazer dos austríacos de praticar comigo quer seja o inglês polido dos amigos acadêmicos, assim como o inglês um pouco enferrujado de outros, aprendido durante os nove anos do ensino fundamental de segundo grau.

  • O que fazer, Darling? Todo mundo quer falar comigo em inglês. E é claro que eu também prefiro… - No trabalho? Nem pensar que eu vou falar alemão com os colegas de trabalho! Pelo menos, não enquanto eu não puder dominar completamente a língua…
Como toda taurina, sempre fui decidida e cabeça-dura. Na verdade, eu não queria me sentir inferior! Já bastava o fato de vir do terceiro mundo, e ter de explicar (?!?) a nossa alta taxa de marginalidade, miséria e a devastação da floresta amazônica para todos os curiosos e muitas vezes mal informados. Mas, em compensação, sempre mantive os pés no chão. Sabia que em breve chegaria o dia que teria de ceder ao alemão, mesmo com erros - e acreditem, com muitos erros! Êta linguinha difícil! Pior que ela, só mesmo o português. Pois o dia chegou! E chegou sem aviso prévio. Muito mais rápido do que esperava, tive que começar a levar meus filhos aos médicos sozinha, participar de reuniões de pais, resolver probleminhas escolares, e fazer compras na feirinha de fazendeiros, onde o inglês não tem a menor chance…
Foi na Áustria que me veio então bem claro a expressão bastante usada pela minha avó paterna: “parece um burro olhando para um palácio”. Assim, ela sintetizava a ignorância de alguém em relação a um assunto qualquer que não lhe fosse trivial. Sempre achei aquela comparação de burro e palácio meio apelativa demais. Pois, bastou uma vez eu, recém chegada, participar de um encontro de amigos do Erhard para me ocorrer perfeitamente toda a essência do significado do burro olhando para o palácio. Eu era o burro em pessoa! O palácio era a mesa redonda que eles formavam numa conversa super animada de final de festa, óbviamente em alemão, onde eu não entendia patavinas!
Atualmente a coisa já melhorou bastante. A minha encarnação de burro já não acontece mais. Aos poucos me qualifiquei como integrante do palácio. Contudo, ainda sinto que tenho muito que aprender para poder me fazer perfeitamente entendida. Volta e meia ao conversar com os amiguinhos da escola dos meninos, sinto que os olhares deles expressam dúvida. Não muito raramente percebo que eles comentam baixinho entre eles: “o que ela quis dizer com isso?”
Outra situação na qual eu ainda não consegui vencer a barreira da linguagem, é quando vou ao cabelereiro. Esta semana tive uma experiência trágica, quando resolvi experimentar um salão de beleza novo num shopping center da cidade. Expliquei a mocinha que me atendeu exatamente como queria que meu cabelo e minhas sobrancelhas ficassem, após o seu trabalho. Ela parecia entender tudo bem direitinho e concordava com aceno de cabeça à todas as minhas observações, com ar de mestre. Fiquei tranquila, me larguei na cadeira confortável do salão, deixando minha cabeça cair para trás, onde tive o cabelo lavado, massageado, cortado e as sobrancelhas feitas. Tudo parecia correr bem até a hora em que me olhei no espelho. Quase desmaiei! Minha densa sobrancelha com look selvagem que tanto amava foi devastada por completo. Dela só me restaram dois riscos de espessura mínima, lá em cima no começo da testa. Quanto ao cabelo, fiquei entre Betty Boop e um rabino conservador com várias vírgulas em partes diferentes da cabeça e duas pontas compridas na frente enroladas em espiral, no mínimo cinco dedos mais longas do que o resto… Que desespero! Afinal, tudo o que eu queria – e que achei ter explicado com sucesso à jovem cabeleireira – era um corte channel mais moderno com a parte da frente um pouco mais longa do que a de trás! Nem preciso dizer que saí do shopping numa volúpia só, morrendo de medo de encontrar alguém conhecido.
Cheguei em casa acabada, peguei a tesoura e, com ajuda do Darling, aparei as pontas excedentes para salvar um pouco a situação. Ele tentou me consolar, mas acabou se enrolando… “Não ficou tão mal. E afinal, você ainda pode deixar de se olhar no espelho. Imagine o meu caso que tenho que olhar para você assim”... Eu queria morrer! Enfim, já me recuperei. Agora só me resta esperar o tempo passar e rezar para tudo voltar a ser como antes. Tomei, entretanto, algumas providências que me pareceram necessárias: encomendei um óculos de sol king-size para usar na fase de crescimento das sobrancelhas, desliguei a minha web-cam do computador para não ter de me mostrar durante um bom tempo nas ligações via skype, e liguei para a Elke para marcar novas aulas de conversação em alemão. Sugestão do tema para a primeira aula: Uma visita ao cabeleireiro!
texto original escrito em 04/05/2007

O livro que escrevi


Acordei com a sensação de que havia escrito um livro. Passei toda a noite me revirando na cama, redigindo em minha mente histórias e memórias da minha vida que de alguma forma gostaria de registrar. Talvez para poder reler posteriormente ou para que meus filhos possam ler algum dia. Tenho certeza que então eles entenderão o porque que faço tanta questão que eles frequentem as aulas de português!

  • Mãe eu já sei falar português! Não preciso ir toda semana às aulas…, diz Markus.

  • Markinhus, o negócio não funciona assim! Você e seu irmão ainda têm muitas coisas novas para aprenderem. É claro que vocês já falam um português bem legal, eu sei…, mas seria bom vocês também lerem bem e mais importante ainda escreverem sem erros! A vovó ficará super feliz quando receber uma cartinha escrita por vocês sózinhos, sem a mamãe ter corrigido nenhuma palavrinha!
Markus e Lukas nasceram e são criados na Áustria, onde moramos. Sim, Alemão é a primeira língua deles dois e, acreditem, eles me dão um banho neste tema! Mas não vamos falar disso agora…
A noite foi de lua cheia. Fiquei sabendo disso somente no dia seguinte, quando comentei com uma amiga sobre a dificuldade que tive para dormir. Talvez tenha sido por causa disso que me inspirei tanto na elaboração dos meus contos.
Quase me levantei para escrever tudo o que me vinha à mente usando o editor de texto no computador, mas me contive a dar mais asas à minha lembrança e imaginação e continuei a decrever mentalmente alguns fatos engraçados, estranhos, embaraçosos, alegres ou tristes que já me aconteceram.
Por um momento fui egoísta e acordei o Darling. Acordei-o para lhe perguntar se ele também estava com dificuldades de dormir! (!?!) Nem preciso explicar a cara que ele fêz ao ter que responder à tal pergunta depois de ser acordado de um sono profundo! É, eu sei… Foi maldade da minha parte… Eu não queria ficar acordada na cama ouvindo o seu respirar em sonhos. Queria a sua companhia para que depois pudéssemos os dois reclamar no dia seguinte que não haviamos dormido bem a noite! Juro que já me arrependi do que fiz. Prometi não acordá-lo mais por um motivo como esse… Mas por qualquer outro, eu não me reponsabilizo! Afinal, essa é uma das vantagens de se estar casada: se ter alguém ao lado para compartilhar os momentos de sua vida – mesmo que sejam momentos de insônia!
Depois de eu lhe contar que há horas estava mentalmente redigindo um livro de memórias e contos, a única coisa que ele disse foi: Ainda bem que você já passou da fase, senão iria trancar a universidade para se tornar escritora, conforme fêz seu sobrinho... Não respondi, mas tive que me lembrar deste fato que por muito tempo não consegui digerir direito. Não que eu tenha algo contra escritores. Isso não, muito pelo contrário. Mas, na época fiquei com pena de ver uma promissora carreira de informático ser trocada por – até então – algumas linhas de um blog… Mas, esta fase dele já passou. E na verdade, a vida é dele. Eu desejo a ele toda a sorte do mundo na escrita ou em qualquer outra coisa que resolver abraçar como profissão. (Às vezes me pergunto, porque sou tão orientada a profissão, carreira, trabalho, diplomas…? Que praga! Será que algum dia vou deixar de ser assim?)
Não, eu com certeza não vou deixar de trabalhar ou de me dedicar à pesquisa, aos meus filhos, à minha família, à casa ou à pintura para escrever somente. Porém, acho que posso me divertir com uma dose ponderada de tudo um pouco, na medida em que o nosso maior inimigo - “o tempo” - permitir. Conforme disse a uma amiga na mesa de uma pizzaria esta semana, acredito que todos com mais de trinta anos e com um currículo de vida vasto em experiências relativamente interessantes, possuem todos os pré-requisitos para escreverem e compartilharem com terceiros suas memórias. Aí é que eu me incluo, sempre contando com um agravante bem positivo: Por não ser profissional da área, posso sempre usar a desculpa de que se o estilo da escrita não for bom, não se poderia esperar muito mais mesmo de uma escritora de horas vagas… É isso aí! Se você se sentiu tentado a fazer o mesmo, aproveite a dica e mãos à obra!
Ah… o livro?… Bem, estou tentando agora transformá-lo em realidade. Depois que finalmente peguei no sono naquela noite, esqueci-me de alguns detalhes já mentalmente redigidos. Tomara que eles me voltem à mente, pois agora já aprendi: não saio para lugar algum sem levar o meu caderno de anotações e minha nova lapiseira. (Nossa! Fiquei surpresa em constatar como as lapiseiras evoluiram nos últimos dez anos! Que delícia escrever com essa modelo “grip-plus”!) Afinal, memória de quem já passou dos quarenta é pouco confiável. Mamãe que o diga!
texto original escrito em 04/05/2007

17 de jan de 2009

Autoanálise










As novidades me atraem.
O trabalho me ocupa.
A pesquisa me desafia.
As tarefas me reciclam.
As dificuldades me irritam.

As ideias me invadem.
Os pensamentos me atropelam.
As ações me fogem.
A frustração me rodeia.
A confiança me ampara.

A sociedade me cobra.
A caridade me dignifica.
A leitura me alimenta.
A escrita me diverte.
A pintura me realiza.

A família me completa.
A distância me sufoca.
A tecnologia me consola.
A comunicação me ajuda.
A rotina me salva.

O tempo me marca.
A idade me trai.
A experiência me acompanha.
A sinceridade me equilibra.
A objetividade me guia.

As lembranças me comovem.
Os amigos me faltam.
A casa me acolhe.
Os filhos me emocionam.
O amor me supera.

texto original escrito em 07/08/2008

14 de jan de 2009

Brasileira é "Cientista do Ano" na Áustria

Na semana passada os jornais austríacos anunciaram, para o orgulho de todos os pesquisadores brasileiros e em especial dos que se encontram no país, que a doutora brasileira especialista em alergias, Dr. Fatima Ferreira, acabara de ganhar o prêmio de "Cientista do Ano de 2008", concedido pelo "Klub der Bildungs- und Wissenschaftsjournalisten" - um clube de jornalistas especializados em educação e ciência.
A pesquisadora reside na Áustria há 18 anos. Ela é chefe do Laboratório de Diagnóstico e Terapia de Alergias da Universidade de Salzburg.
A foto acima foi retirada da página da APA, onde a "Cientista do Ano" é entrevistada.
Uma pesquisadora sendo premiada! Uma brasileira mostrando seu valor no exterior! Parabéns Dr. Ferreira! Obrigada pelo exemplo de dedicação e competência! Que orgulho! E ainda por cima, com o nome de Fatima!

9 de jan de 2009

Geleia de Pera

Entrei o ano comendo geleia sem acento e linguiça sem trema. Deixei de comprar aquela joia da vitrine, pois afinal ela já não era mais a mesma... Sem diferencial a pera deverá ficar mais gostosa e o pelo do gatinho pelo visto não deverá me fazer espirrar mais. Mas, nem só de perdas vive a nossa nova ortografia. Meu micro-ondas, por exemplo, ganhou um hífen e ficou super-resistente!
Mãos à obra! A nova ortografia nos espera!
Algumas dicas:
"MANUAL DA NOVA ORTOGRAFIA", edição especial da Revista Nova Escola, em co-edição com Ed. Ática, Ed. Scipione e Fund. Roberto Civita.
"GUIA PRÁTICO DA NOVA ORTOGRAFIA", (Michaelis) por Douglas Tufano, editado pela Ed. Melhoramentos.
"REFORMA ORTOGRÁFICA", slide-show do portal globo.com.
"GUIA RÁPIDO DO G1 SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO". Guia em pdf disponível no portal g1.com.br.
"INFOGRÁFICO DO ACORDO ORTOGRÁFICO", disponível no portal IG Educação.

6 de jan de 2009

A Lya tem toda razão

Quando a Veja chega sempre me empolgo e devoro já de cara as colunas do Diogo e da Lya. Na semana do Natal, Lya Luft nos lembrou da real importância daquela data. Mais do que um presente caro, mais do que uma ceia farta, a verdadeira mensagem que o Natal nos transmite vem com um sentimento maior de harmonia, de bem-viver, de carinho e afeto. Tento sempre explicar isto tudo para os meninos e tenho certeza que eles até entendem... Porém, se a árvore chegar no dia 24 sem esconder alguns presentes ao seu pé, o sentimento deles será de grande frustração. Mas uma coisa é certa: um dia eles próprios terão a nobre tarefa de brincar de papai noel, e aí então empacotarão cada presente com muito amor, assim como fazemos hoje, esperando que a família se reúna sem rancores, sem indiferenças e com muita alegria. Obrigada Lya, por nos relembrar dos valores mais puros desta data tão divina.

Galeria de visitantes

O "Boa Baltazar" possui atualmente:
Comentários em Artigos!
Widget UsuárioCompulsivo

Últimos 25 posts

Ocorreu um erro neste gadget

translator/übersetzer/ traducteur/μεταφράστης ...

Ocorreu um erro neste gadget

Wikipedia Search

tráfico de visitas...