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24 de jan. de 2009

A Emancipação de Mamãe

O que para muitas mulheres pode parecer um procedimento rotineiro e trivial, para outras é com certeza uma tarefa difícil de ser realizada. Especialmente quando falamos de mulheres da geração dos anos 30, as quais, salvo raras exceções, cursavam até no máximo o segundo grau e depois somente se preparavam para o casamento e para servir aos seus lares, maridos e filhos.
O trabalho fora de casa nunca era visto como uma realização profissional. Era considerado desnecessário, inapropriado para uma senhora de família e muitas vezes como um sinal negativo de que o marido não conseguia suprir sozinho as necessidades básicas da casa e da família. Um vexame! Comentários como: “Coitada, a fulana precisa trabalhar fora…” eram feitos entre amigos e familiares com um tom de compaixão. Outras vezes ouvia-se desculpas para aquelas mulheres que se atreviam à batalha do trabalho fora de casa, porém não se arriscavam a perder seus status de senhoras de família. Tais comentários em geral se expressavam como: “A fulana resolveu trabalhar fora. Na verdade, ela está trabalhando para se distrair. Ela estava tão entediada em casa que precisava de alguma atividade extra para ocupar seu tempo…” - Se por acaso ouvirmos ainda hoje em dia tal desculpa, podemos concluir que a pessoa fazendo o comentário está, no mínimo, cinquenta anos defasada da realidade do mundo atual!
Mamãe faz parte dessa geração. Casou-se com vinte anos de idade com meu pai que, apesar de somente dois anos mais velho do que ela, como todo marido da época que se prezasse se responsabilizou sozinho pelo ganha-pão da família. Mamãe trabalhar fora? Nem pensar! Um assunto que, para sua frustação, era totalmente fora de cogitação. Desde que ficou noiva, mamãe não foi mais encorajada a continuar seus estudos. Também seus planos de trabalhar como professora foram sufocados pela perspectiva de um matrimônio próximo, oferecendo um futuro seguro, sem a necessidade de um esforço maior de sua parte. Tais planos não faziam parte da tradição familiar, nem tão pouco dos costumes da época. Afinal, preparar o enxoval já tomaria quase todo seu tempo!
Mamãe havia feito, além de seu colegial, o curso completo de corte-e-costura. Lembro de sua foto de formatura, na qual ela de lábios pintados e irradiando alegria, usava uma beca preta com babados brancos na frente e um broche com formato de tesoura entreaberta enfeitava o seu peito. Habilidade para trabalhos manuais sempre foi um de seus pontos fortes. Indiretamente ela ajudou bastante o orçamento familiar, mantendo-o relativamente baixo, pois costurava e tecia sempre para mim e meus irmãos, quando éramos crianças. Fato pelo qual se orgulhava, e acredito que se orgulhe até hoje.
Na verdade, mamãe nunca se entregou exclusivamente ao mundo das donas-de-casa de sua época. Ela conseguiu preservar seus próprios interesses, sem interferir é claro com o bem estar familiar. Mamãe usou calças compridas quando nenhuma outra mulher casada da família o fazia, e aprendeu a dirigir quando já éramos semi-adolescentes. Nos finais de semana, ela dirigia uma Ford-Rural da firma de papai para poder passear conosco nas praias e nos parques do Rio, levando também muitos de nossos amiguinhos, todos empillhados dentro daquela caminhonete. Uma farra só! (Naquela época não usávamos cintos de segurança e não recebíamos multas por carregarmos mais pessoas do que o carro comportava em seus bancos… sem contar com o bagageiro…)
Durante um periodo longo ela fez curso de inglês e também cursos de jardinagem e paisagismo, dando asas à sua grande paixão pelas plantas. Chegou até mesmo a participar, com uma amiga que também trabalhava para se distrair, de feirinhas de plantas e artesanato organizadas semanalmente pela prefeitura em vários parques e praças da cidade. Era cansativo, mas elas pareciam sempre bem dispostas e entusiasmadas com toda aquela empreitada, na qual elas eram sozinhas responsáveis pelos investimentos e lucros.
Em casa, contudo, sua responsabilidade se restringia aos temas familiares e domésticos, sem chegar ao escopo financeiro. Assuntos como pagamentos de contas, transações bancárias, contratos de serviços, ou consertos e compras maiores eram quase sempre resolvidos única e exclusivamente pelo papai. Afinal, isso era coisa de homem! Ainda me lembro como se fosse hoje do dia em que mamãe voltou do banco, após abrir sua primeira conta corrente, furiosa, querendo me matar!
  • Você não me explicou nada direito sobre o que eu tinha de fazer lá no banco! – dizia ela ofegante.
  • Como? Eu não falei que voce tinha de levar os documentos e falar com a mocinha da gerência para abrir a conta? – respondi sem entender o que havia acontecido.
  • E o código? Porque voce não me avisou sobre o código???
Havia pouco tempo do falecimento de papai, quando então se fêz necessária a abertura de uma conta bancária para mamãe. Coisa que, apesar de trivial para qualquer um de nós, para minha mãe naquela fase foi mais um obstáculo a ser vencido. Até seus cinquenta e dois anos de idade, ela tinha somente feito uso de cartões de créditos, debitados diretamente na conta de meu pai. Mamãe nunca havia tido antes uma própria conta no banco!
Acabei de falar com mamãe por telefone. Ao saber que estou agora escrevendo a seu respeito, ela me pediu para se possível relatar somente os fatos “maravilhosos”… Espero não decepcioná-la!
Naquele dia no banco, a situação deve ter realmente sido um pouco embaraçosa para ela. Era um horário de grande movimento e o banco se encontrava bem cheio. Demorou para mamãe ser atendida e atrás dela já se formara uma fila de mais de meia dúzia de pessoas. A funcionária do banco lhe pediu para preencher um formulário, enquanto foi fazer fotocópias dos documentos necessários. Ao voltar, passou para mamãe o teclado de números: - Agora a senhora faça o favor de digitar seis números - disse ela. Mamãe mais do que depressa apertou aleatóriamente seis vezes os botões daquele tecladinho à sua frente e – Pronto! – respondeu com obediência. A moça continuou o seu trabalho de abertura de conta, digitando outras informações no seu computador. Logo depois, ela se dirige de volta à mamãe:
- Por favor, senhora, digite mais uma vez o seu código.
- Código? Que código, minha filha? – perguntou mamãe com voz de inocente.
- Minha senhora, os seis números de seu código pessoal. Sua senha para o acesso automático de sua conta bancária!
Então, mamãe finalmente percebeu para que serviam aqueles seis números por ela digitados. Só havia um probleminha: ela já não se lembrava mais quais eles eram…
- Como? A senhora não se lembra mais??? – É lógico que a funcionária do banco não havia explicado anteriormente para mamãe a importância dos números de sua senha. Parecia óbvio! Todo mundo sabia que teria de memorizá-los para usá-los posteriormente quando fosse necessário. Todo mundo, menos a mamãe!
As pessoas da fila começavam a perder a paciência e a reclamar baixinho sobre o que acontecia à frente delas. Mamãe suava frio, contudo, não perdeu a pose:
- Me desculpe minha filha, mas acho que eu vou ter de repetir todo o procedimento, pois aqueles números eu não vou conseguir mais lembrar agora… – disse ela delicadamente à funcionária. E assim foi feito. Super compenetrada, mamãe repetiu a escolha dos números, memorizando direitinho um-a-um e se esforçando ao máximo para além de não errar mais nada, ser rápida para não tomar mais tempo dos outros, atrás dela na fila.
Difícil de prever tal situação, não? Confesso que não me senti culpada. Realmente, jamais iria imaginar que minha mãe não entenderia logo de cara a função de uma senha…
Hoje em dia, várias outras senhas fazem parte da vida de mamãe. Não somente as senhas de cartões de banco, mas também as senhas de acesso para os vários sistemas protegidos que utiliza através de seu computador: seu e-mail, seu ambiente provedor da internet, o skype, etc. Pode-se dizer que gradualmente mamãe se emancipou após ter se tornado viúva.
Foi também após completar sessenta anos, que ela voltou regularmente aos bancos escolares, se matriculando – com um leve empurrãozinho de minha parte – na universidade da terceira idade: uma iniciativa mais do que louvável da universidade do estado. Na universidade ela fez novas grandes amizades. Encontrou pessoas iguais à ela: senhoras, mães, avós, viúvas… Enfim, amigas que atualmente compartilham com ela o tempo vago de suas semanas, com encontros para um café com leite e uma partidinha de mexe-mexe, saídas aos cinemas, museus, teatros ou viagens de fim de semana. Na universidade ela ampliou seus conhecimentos, frequentando vários cursos, workshops e seminários que abrangem temas variados, como por exemplo: história da arte, informática, inglês, espanhol, alemão, yoga, ginástica, pintura, dança sênia e xadrez, entre outros.
Mamãe cresceu como pessoa! Agora ela resolve e decide quase sempre sozinha todo seu dia-a-dia: seus pagamentos, seus compromissos, seus tratamentos, suas compras e consertos. Também desempenha com sucesso todas as transações financeiras necessárias da sua rotina bancária. As vezes até se recusa a usar a fila de idosos no banco, pois, segundo ela, é a fila que demora mais a andar.
Aqueles velhos vão ao banco para ficar de papo com os funcionários do caixa… E além do mais, eles nunca sabem como proceder… Imaginem que nem memorizar as senhas eles conseguem! – Esses, com certeza, ainda não se emanciparam!
texto original escrito em 29/05/2007

8 comentários:

Unknown disse...

Belo texto e comovente e encorajador. Um incentivo e um convite 'a emancipação, tão importante e necessária para se ter qualidade de vida na terceira idade. Ainda e sempre Simone de Beauvoir: "Somente o tabalho fora do lar é capaz de ajudar a plena realização psíquica e social da mulher". Beijos prima, e parabéns!

Fatima Cristina disse...

Oi Tânia! Valeu pela visita e pelo comentário tão sábio. Volte sempre! Beijos.

Anunciação disse...

Gostei demais de seu texto.Senti-me como estivesse no lugar de sua mãe;agora já vou completar 60 mas desde nova,mesmo estudando e tendo feito curso superior sempre fui meio lerda;isso serviu para eu ter mais paciência com as pessoas limitadas ou que desconhecem ainda o mundo das senhas e números que envolvem a vida real.Parabéns e dê um beijo em sua mamãe.

Fatima Cristina disse...

Obrigada Anunciação!
Seja bem-vinda.
Bom saber que você se identificou com o texto. Abraços.

chica disse...

Que lindo.Adoro essa histórias assim.Tive uma AMiga que nunca aSSINOU UM CHEQUE,NEM FEZ COMPRAS SEMO MARIDO AO LADO,pODE? BEIJOS,TUDO DE BOM E PARABÉNS À TUAMÃE.CHICA

angela disse...

É bonito ver que apesar das perdas que temos na vida também temos ganhos e sempre é tempo de aprender para quem mantem dentro si a curiosidade e o amor pela vida.
Lindo texto e linda mãe.
beijos

* Edméia * disse...

*Fátima, graças a Deus, os tempos

são OUTROS hoje !!! No ônibus que

eu pego para ir para a escola,

às vezes, quem está como motorista

é uma bonita moça e o cobrador ...

é um bonito rapaz !!! Acho

engraçado isso ! Divirto-me !!!

*Ótima sexta-feira !!!

*Fiques com Deus.

*Um abraço.

Fatima Cristina disse...

Olá Chica, Angela e Fada!

Obrigada pelos comentários através da Releitura deste texto.

Ainda bem que os tempos mudaram!!!

Beijos!

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